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Archive for the ‘Contos’ Category

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Era uma vez Catarina, uma meninaque amava livros. Aliás, ela já não era mais uma menina, mas enquanto lia sesentia como uma criança, imaginando e vibrando com as frases dos livros paragente grande.
O problema era que Catarina tinhauma mania: antes de começar a leitura de qualquer romance ela corria afoitapara a última página a fim de saber como terminava. Limitava-se a ler apenas,rapidamente como se estivesse fazendo algo proibido, o último parágrafo. Emseguida, respirava aliviada mesmo sem entender patavinas sobre a estória ecomeçava do início.
Conforme as páginas iamavançando, já do meio para o final, Catarina sentia uma angústia terrível. Aesta altura já não se lembrava muito bem do parágrafo da última página. Oproblema era que ela se envolvia tanto com tudo aquilo – os personagens, oenredo –, se apegava de tal forma àquele aglomerado de papel que sentia pena determinar. Assim, muitos livros iam se acumulando nas estantes, empoeirados,embora totalmente organizados.
Com o tempo, seu problema ganharauma dimensão tamanha que ela até evitava passar os olhos pelos títulos deixadosde lado, como se as obras a cobrassem uma dívida: o término. Assim, Catarinaaumentava a sua coleção de “rejeitados” pelo simples medo do vazio que cada estóriadeixaria em seu coração, com a falsa sensação de que se as terminasse elas setransformariam em algo tão independente dela, tão fora do seu controle e sesentiria obrigada ao ritual de despedida.
Catarina se privava de belasestórias. A dificuldade em virar a página a impedia de descobrir o belo noimprovável. Preferia viver apenas um suspense não desvendado. Ela estavaapegada ao costume cruel de não se permitir viver grandes aventuras.
(Mila Viegas)
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>A Mudança – Parte Final!

>Leia as outras partes:

Parte I
Parte II

Ele se acostumou a chegar em casa e se contentar coma esposa dormindo (muitas vezes fingindo) e entrar sorrateiramente no quarto afim de não acordá-la. Por quê? Simples. Ele somente tinha prazer em acender aluz no meio da madrugada, no melhor do sono, enquanto se preparava para sairpara o trabalho. Acordar a mulher assim era muito mais prazeroso!
Naquela noite, ele chegou de mansinho após tertraçado um bom prato de comida e deixado a pia num estado caótico. Ele sabiaque ela odiava acordar pela manhã e encarar uma pilha de louças sujas. Com avisão meio turva, se despiu na sala de estar e atirou em cima do sofá as roupassuadas, largou os sapatos espalhados e as meias reviradas pelo tapete. Ela quearrumasse no dia seguinte.
Nu em pêlo se dirigiu para o quarto, não acendeu aluz e se atirou com tudo sobre a cama. Ele sabia exatamente onde cada mobília estavaafinal tinha uma mulher impecável e meticulosa. Qual foi sua surpresa quandosentiu seu rosto ir de encontro ao piso frio, provocando um barulho abafadocomo quem joga um tapete enrolado com força sobre o chão. Ele ficoudesnorteado. Sentiu o sangue escorrer-lhe pelo supercílio devido à pancada erapidamente se levantou à procura da porta de entrada a fim de se situar noambiente. Virou-se para o lado esquerdo tateando na escuridão até encontrar amaçaneta ou algum objeto que reconhecesse. Achou a porta, mas entrou no closet.Sem ter noção do ocorrido, se aninhou em uma das prateleiras julgando ser acama e adormeceu, caiu num sono profundo que logo se podia ouvir o ronco.
Ela se levantou, pôs a cama de volta ao lugarrotineiro, arrastou suavemente os dois criados-mudo e deixou tudo como sempreesteve. Quando ele abriu os olhos pela manhã, se viu nu, deitado sobre astoalhas de banho, com dores no corpo de uma noite mal dormida e com a ressacalatejando-lhe a cabeça. Saiu do closet cambaleando e viu um quarto arrumado domesmo jeito que deixara quando saiu. Na cozinha, a mulher preparava ocafé-da-manhã como de costume e o cumprimentou com um sorridente: “Dormiubem?”.


Texto por: Mila Viegas

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>A Mudança – Parte II

>Leia a parte I aqui!

Se ela procurava consolo nos braços de um amante, nãose sabe, mas mesmo isso não aliviava a sensação de dar de cara com a realidadequando colocasse os pés dentro de casa. No fundo, ela tinha pena do marido.Todos os dias agradecia aos céus por não ter filhos com ele e, por que não oabandonava de uma vez por todas? Karma? De qualquer forma, talvez nem ela mesmocompreendesse o que a levava permanecer ali, submissa e infeliz.
Aquela mulher era um mistério. Sempre dócil e gentil,jamais reagiu às provocações ou revidou com ações. Quanto mais ele esbravejavapor motivos supérfluos, mais ela silenciava. Isso aumentava a ira do marido queansiava por quaisquer reações que a tirassem do sério e fizessem valer oconflito. Ela, nada. Certo dia, uma amiga sugeriu vingança:
– O traia com o melhor amigo!
– Não sou desse tipo. – Ela respondeu.
O fato é que traição não deveria ser um ato vingativo.Para a mulher, uma decisão como essa tem significados mais profundos do que pagarna mesma moeda e este não era o caso. Ele era fiel e se tornou um bêbado,apenas isso. Era um cara que, apesar de tudo, não agia com violência física,embora soubesse usar bem as palavras para atingir a vítima.
Como pode umapessoa nascer para infernizar a vida da outra? – era a pergunta que elasilenciosamente se fazia a cada manhã. Mas de uma coisa ela não poderiareclamar, ele sempre a elogiava para os amigos dizendo ter em casa uma mulherimpecável que cuidava dos afazeres domésticos como ninguém. Não se via umobjeto fora do lugar!

Ele se acostumou a chegar em casa e…


Continua…

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>A Mudança – Parte I

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Ele nunca a traiu… Bom, talvez em pensamento. Masisso não significava que era um bom marido. Um cara que lhe testava todos oslimites da paciência, fazendo joguetes e cenas dignas de uma indicação aoOscar. Ah, se Hollywood o descobrisse!
Ele nasceu em uma geração onde era bacana bancar omachista – “Mulher minha não trabalha fora!” – Ele não dizia, mas certamenteera o que pensava e mostrava com as atitudes mais infantis que se possaimaginar. Com isso, ela foi perdendo o tesão na relação. Não aquele tesãonecessário para um sexo bom, mas a acomodação de deixar-tudo-como-está,empurrando com a barriga um relacionamento que já começou fracassado, movido poruma motivação equivocada.
Mesmo assim ela se conformou e decidiu envelhecer aolado dele. O cara era um bruto, não fazia uso do bom e velho respeito, provocavasituações ridículas principalmente quando recebiam visitas a fim de que todasas amigas e demais parentes se afastassem dela. Ninguém estava mais tãodisposto a presenciar baixarias!
Eram pequenas picuinhas que, muitas vezes, só elaentendia e passava despercebido sob os olhares de quem estivesse presente. Issoprovocava ira, mas não o suficiente para que a fizesse dar um basta norelacionamento. Como se fosse pouco, ele passou a beber.
Todos os dias chegava do trabalho com um bafo dignode quem se esbaldou no boteco da esquina. As mãos sujas de giz dos tacos desinuca e um andar nada sexy. Queria abraçá-la e mostrar-lhe como segurar umtaco com dignidade e deixá-lo a ponto de “encaçapar” a bola. Ela se esquivavaprocurando evitar o confronto. Foi então que aprendeu a ir para a cama maiscedo, antes que a criatura chegasse com promessas de amor para dar.
Muitas vezes ela desejou que ele arrumasse umaamante, se apaixonasse e a deixasse em paz. Mas ele só tinha olhos para ela.Era capaz de visualizar a cena: ele chegando do trabalho e lançando a bomba nomeio de jantar “Me apaixonei por outra e quero o divórcio”. Seria perfeito! Emoutros momentos ela imaginava uma viuvez precoce, decididamente, por causasnaturais, pois a última coisa que queria era virar uma assassina da noite parao dia e amargar numa prisão por conta do cafajeste.

CONTINUA… 

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>A agenda!

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Na minha época, a agenda era uma espécie de livro sagrado das adolescentes. Todos os nossos segredos – que não eram tão secretos assim – e nossas impressões ficavam guardados ali, desde poemetos e frases soltas até a embalagem do bombom que aquele possível “ficante” nos ofereceu na hora do recreio.

A agenda era uma extensão em letras de nós mesmas e, por isso, só poderia ser lida pelas amigas que a gente acreditava ter tudo a ver. Foi assim que, a Cris, uma amiga de uma amiga minha, me ofereceu o seu “livro de mistérios” para que eu escolhesse uma página e escrevesse coisinhas carinhosas para ela. Estudávamos na mesma escola e, praticamente, tínhamos acabado de nos conhecer. A troca de agendas era uma espécie de ritual. Enquanto Cris levou a minha para casa, eu guardei a dela dentro da mochila esperando ansiosamente o momento de me trancar no meu quarto e desvendar seus segredos.

Sempre fui curiosa demais e acabava devorando as agendas que, vez ou outra, me visitavam como se fossem verdadeiros Best-sellers. E assim, encontrei numa das páginas da agenda tímida da Cris um dado de tamanha relevância.

Ela era uma menina que, dificilmente, era vista com alguém… Digo, algum pretendente a “ficante” ou algo do tipo. Nunca a vi de segundas intenções com um carinha, mas na agenda ela relatava uma cena de beijo, no dia do seu aniversário. Em poucas linhas, ela contou o seu interesse pelo Flávio que, pelo desenrolar do texto, nunca lhe dera muita bola. Então, ele era uma espécie de amor platônico e, certamente, ela jamais vislumbrou a possibilidade de uma aproximação interessada. Cris dedicou a página seguinte inteira para contar sobre a presença do Flávio em seu aniversário:

Levei um susto quando vi o Flávio chegando aqui em casa sem ser convidado. Aliás, não o convidei porque achei que ele não viesse. Ele chegou, se aproximou de mim e eu, estupidamente, perguntei: “Não trouxe presente?”. Ele deu um sorriso dizendo que sim e, sem que eu esperasse, me tascou um beijo na boca, desses de cinema. Foi o melhor presente da noite porque além de eu já ter uma quedinha por ele, nunca beijei um garoto que beijasse tão bem assim! Pena que foi só dessa vez e não mais. (Cris “Cobain”) Obs: ela era fã do Nirvana!

Essa data, 14 de fevereiro de 1994, ficou não só registrada na agenda da Cris, como também em minha memória. Primeiro porque não era comum ver o Flávio de beijos com alguém, segundo porque a Cris também não era dessas meninas extrovertidas que beijava na boca todo final de semana.

O Flávio era um cara intrigante, tinha uma namorada virtual numa época que a internet era coisa do futuro. Por isso, ele era um cara meio inacessível para os casos de amor adolescente. Acho que era fiel na medida do possível e isso fazia dele um bom amigo.

O tempo passou e numa noite de sábado, no ponto de encontro da turma, vi Flávio conversando com o Sandro e me aproximei. Lembro como se fosse ontem, a temperatura agradável da primavera, um monte de gente bonita e sorridente na rua, música tocando na jukebox de um dos bares em volta da praça. Comecei a participar da conversa dos dois e fui muito bem recebida. O Sandro era uma gracinha, um menino de altura mediana, moreno de cabelos escuros lisos e um olhar muito expressivo. Era o tipo de cara que dava vontade passar a noite inteira conversando. O Flávio era alto, pele branca como a neve, cabelos compridos estilo rock’n roll, olhos claros e um jeito todo particular de se vestir.

O papo variou entre as peças de teatro que o Sandro estava participando e o dia-a-dia do Flávio na faculdade que fazia em outro Estado. Eu me interessava sobre a vida agitada deles, eram mais velhos e tinham a possibilidade de conhecer um pouco mais sobre a vida fora daquela cidade pequena. Passei a maior parte do tempo mais ouvindo do que dando pitacos na conversa.

Por alguns minutos achei que Flávio me olhava de forma diferente, de um jeito que ele nunca me olhou antes, mas não quis acreditar que havia interesse em “algo mais”. Enquanto o Sandro contava sobre os seus avanços na profissão de ator e as inúmeras propostas que vinha recebendo, Flávio flertava comigo. Até que, ignorando as palavras do amigo, transformando sua voz numa espécie de música de fundo, ele se aproximou de mim e sussurrou no meu ouvido:

_Se você não quiser tudo bem, mas eu queria te dar um beijo, topa?

Fiquei sem ação e sem resposta. Flávio era meu amigo, um dos melhores que alguém pode ter. Confesso que era um cara interessante, mas jamais passou pela minha cabeça ter alguma coisa com ele. Em uma fração de segundos eu pensei nas possibilidades, no fato de um beijo acabar mudando alguma coisa na nossa amizade, pensei no Sandro que tagarelava sem parar e pensei na Cris, ou melhor, na agenda da Cris.

Sandro percebeu o clima que se formou entre nós e, com um sorriso meio malicioso, se despediu. E eu, ainda sem resposta, cogitando não aceitar a proposta, via desfilar em minha mente as palavras escritas pela Cris em sua agenda… “Nunca beijei um garoto que beijasse tão bem!”. Essa frase ficou se repetindo como um mantra.

“Ele beija bem!”, eu pensei. Se isso estava escrito com caneta cor-de-rosa naquela agenda tímida e contida, era certo que tinha valor, mesmo sabendo que talvez ela não fosse a melhor pessoa para avaliar beijo. Flávio continuava parado na minha frente aguardando a minha decisão. Eu fiquei tão envergonhada que a única coisa que consegui falar foi:

_Mas aqui?

_Não, se você quiser a gente pode dar um rolé e encontrar algum lugar mais reservado. – Ele logo quis arrumar uma solução.

Enquanto nos afastávamos do movimento, eu avaliava se tinha tomado a decisão certa baseada no que tinha lido na agenda da Cris, mas seria interessante comprovar se o beijo era bom mesmo, afinal, a oportunidade estava bem ali do meu lado e poderia ser a única, não dava para desperdiçar. Se eu recusasse, talvez Flávio nunca mais me pedisse isso, ficaria com vergonha achando que fez algo de errado no calor do momento. Pelo pouco que o conhecia, eu sabia que um “não” poderia significar uma chance perdida que nunca mais poderia se apresentar pra mim.

Assim que Flávio julgou ter encontrado um bom lugar, sem muita cerimônia me puxou pela cintura e me deu o tal beijo e…. ponto para a Cris! Foi o beijo mais gostoso que alguém já havia me dado até aquele  momento. Mal eu sabia que estava diante de um cara que faria toda a diferença na minha vida dali por diante e eu não teria descoberto isso se deixasse de dar crédito as palavras que a Cris quis imortalizar para si mesma em sua agenda. Acho que até hoje ela não sabe disso!

*Texto de Mila Viegas. Respeite os direitos autorais.

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