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Café

Muitas vezes, amo tomar café só para ter o prazer de segurar a xícara. Ver o líquido quente, enegrecido, forte, descer lento pelo bule derramando aromas.

Amo os grãos de café… Parecem pequenos búzios trazendo a sorte de uma agradável companhia.

Inundar manhãs e tardes com cheiro encorpado… Talvez sinalizando que ali alguém precisa pensar sobre algo que a vida sugeriu ou que haverá um papo animado.

Café me lembra as doces manhãs preguiçosas da infância, as mãos do meu avô segurando o coador de pano, a chaleira apitando, o pão com manteiga derretida…

Café me lembra chegadas, quase nunca partidas. Café é uma boa desculpa para fazermos uma visita.

Amo tomar café só para ter mais prazer nos momentos em que é necessário pensar seriamente na vida.

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Palavras

Só eu sei o quanto me custa

Adormecer em palavras

Deixá-las pousando

Num criado mudo vazio

 

Procurá-las sob o travesseiro

Nas gavetas da cômoda

Debaixo da cama

Deitadas num chão frio

 

Só eu sei o quanto me custa

Aprisioná-las, abandoná-las

Calar mil vozes

Para não ouvir um pio

 

Palavras em gaiolas

Enjauladas em tristezas

Carentes, não são ditas, nem lidas

Palavras inúteis como uma vela sem pavio.

(Mila Viegas)

*Uma singela homenagem ao Dia do Escritor. Aproveitando para desejar muitas inspirações à todos os escritores do nosso país.

Transição

O amanhecer e o anoitecer
parece deixarem-me intacta.
Mas os meus olhos estão vendo
o que há de mim, de mesma e exata.

Uma tristeza e uma alegria
o meu pensamento entrelaça:
na que estou sendo cada instante,
outra imagem se despedaça.

Este mistério me pertence:
que ninguém de fora repara
nos turvos rostos sucedidos
no tanque da memória clara.

Ninguém distingue a leve sombra
que o autêntico desenho mata.
E para outros vou ficando
a mesma, continuada e exata.

(Chorai, olhos de mil figuras,
pelas mil figuras passadas,
e pelas mil que vão chegando,
noite e dia… – não consentidas,
mas recebidas e esperadas!)

– Cecília Meireles –

Acontecimentos

Nos últimos dias fui invadida por diversos sentimentos. Situações de finais tristes, outras de percursos felizes. Pude experimentar dores e alegrias, quase que ao mesmo tempo. Pude comprovar o quanto certas pessoas podem ser cruéis e ver que, também, existem outras com nobre coração. Mais uma vez pareço ouvir a voz da minha avó materna que se foi quando eu ainda era criança: “Quando você vir alguém maltratar uma criança ou um animal, pode estar certa de que esta pessoa não tem caráter”. E foi assim, que neste sábado, dia 16 de julho, meu vizinho assassinou cruelmente o nosso gato Mike. Esperou-nos sair de casa para um passeio em família e o atropelou bem em frente à nossa casa, sem dar a mínima chance do animal reagir.

Mike dormia como de costume e foi surpreendido pelo sujeito que viu o seu estado vulnerável e arrancou com o seu carro em direção a ele, não satisfeito engatou a ré e passou por cima novamente, deixando o animal prostrado ali, sem prestar socorro, sem ao menos parar o veículo, mostrando que seu ato foi proposital e repleto de ódio. Não… Não foi sem querer! Meu celular tocou no momento em que eu estava com a minha família num lanche animado próximo à nossa casa. Meu filho chorou agarrado em mim, soluçando pela perda do seu amigo, seu animal companheiro que o seguia a todo canto. Assim, corremos para o local. As crianças vizinhas que amavam aquele bichinho carinhoso, estavam em volta do seu corpinho, chorando também. Os demais vizinhos indignados sentiam a nossa perda. Havia testemunhas.

Aguardamos a chegada do sujeito a fim de apurar o que houve. Suas palavras foram: “Ele não saiu da frente e eu passei por cima”. Ora, será que ele passaria por cima de uma das crianças que vivem a correr e a brincar aqui no condomínio, apenas pelo fato de serem surpreendidas e não terem tempo de sair do seu caminho? Mesmo assim, Mike não estava no caminho, não há justificativas, muito menos desculpas após a confissão do ato proposital. Medidas poderão ser tomadas, já que o artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais é muito claro a respeito disso. Infelizmente num país onde a impunidade é marca registrada e muitos criminosos se valem disso, não se pode fazer tanto e isso também não faz retroceder o tempo e trazer nosso querido de volta.

Pedi muito perdão à Deus por eu ter deixado o lado mais feio de mim sobressair, desejando coisas não tão boas para esse sujeito cruel. Mas não sou como ele, ao contrário, sou uma pessoa boa que possui amor transbordante no coração. Desejo que ele aprenda algo com isso e não faça mal a mais nenhum ser vivo nessa sua existência. Prestará contas, mas não a mim e a minha família. Prestará contas a si mesmo quando perceber que tais atos cruéis em nada contribuem com a sua evolução.

Mike foi querido, foi amado e continua sendo. Infeliz aqueles que não se permitem desfrutar da companhia de animais e experimentar o amor incondicional que eles nos ofertam… Não sabem o real significado do amor.

Nossa vida aqui continua com esforços e conquistas. Coisas boas acontecendo. E a cada dia aprendemos mais que não podemos interferir nas escolhas dos outros, pois toda ação gera uma reação. Toda escolha traz consequências.

Eis um dos filmes mais loucos e coerentes que já assisti. Dia desses, na pausa para o café, eu e meu marido estávamos conversando a respeito do Will Ferrell e ele acabou me falando a respeito deste filme, embora não tivesse assistido ainda. Ele sabia um pouco do enredo e me contou mais ou menos sobre a história. Ontem, por coincidência, eu estava procurando algo para assistir na TV e o filme estava passando na FOX.

Harold Click (Will Ferrell) é o personagem principal do livro da escritora Kay Eiffel (Emma Thompson), um auditor da receita federal que leva a vida de forma muito regrada e a rotina conduzida pelo seu relógio de pulso, tudo absolutamente cronometrado. Até que ele percebe a voz da escritora narrando a sua própria história e começa a acreditar que está ficando louco. Ao mesmo tempo, Kay está passando por um intenso bloqueio criativo e perde a inspiração para continuar escrevendo o livro e, como todos os personagens de seus livros morrem ao final, ela não consegue encontrar um modo interessante de matar Harold.

O auditor entra em desespero quando escuta a voz da escritora narrando a intenção de matá-lo e procura ajuda para entender o que está acontecendo. Uma ideia absurda e irreal, mas que passa credibilidade para quem está assistindo. Harold encontra o professor de literatura vivido por Dustin Hoffman e ele decide ajudá-lo procurando possíveis responsáveis dentro do meio literário. Tudo isso nos faz passear pela narrativa alternada entre ficção e realidade. O que é livro? O que é a vida real do personagem?

O fato é que Harold vê sua rotina ameaçada pela escritora e tenta encontrá-la, principalmente após saber que sua vida está ameaçada e que possivelmente terminará de forma trágica.

O interessante é vermos os altos e baixos do ofício de uma escritora famosa, bem sucedida, que se vê estacionada pela falta de criatividade à procura da inspiração perdida. Ao mesmo tempo, mostra a capacidade de um personagem criar vida, ser tão real a ponto de interagir e interferir na história. Trata-se de um filme repleto de significados para quem é escritor ou gosta de escrever. Recomendo.

Tudo passa…

Tenho me sentido muito feliz com os rumos da vida, mesmo com as sinuosidades, o ziguezaguear do percurso e cada vez mais trago a certeza de que uma coisa leva a outra, que leva a outra e vai levando… Assim, de forma simples, numa sucessão de pequenos acontecimentos relevantes. Todos os dias há tarefas que precisam de atenção. Falo de tarefas básicas como trocar a água dos animais, encher seus comedouros, varrer o chão, ler um livro. Penso que quando fazemos as coisas com prazer, algo invisível começa a acontecer. Atraímos mais atividades prazerosas, pessoas que estão afinadas conosco e que sempre têm algo interessante para nos ofertar.

Após uma fase conturbada em que vi, literalmente, meus sonhos desmoronarem da noite para o dia, descobri que é preciso enfrentar o luto e senti-lo com toda a intensidade. Apesar da dor, todo acontecimento nos traz clareza. É como se estivéssemos envolvidos em brumas espessas que nos tornam incapazes de enxergar um palmo diante do nariz. Nestes instantes tudo parece desaparecer, perdemos a nossa referência e acreditamos que é uma condição permanente. “Tudo passa”, uma voz nos diz bem no âmago do nosso ser. Tudo passa, mas temos pressa. Só que nós não podemos controlar o tempo. O que fazer diante de uma situação tensa em que todo evento se mostra intenso demais a ponto de acreditarmos que não somos capazes de suportar? A medida mais sensata é viver e deixar-se envolver pelos acontecimentos procurando extrair deles a clareza necessária para nutrirmos nosso espírito com a experiência. Quando alcançamos isso, chega o momento tão esperado… O momento em que “tudo passa”.

É como se estivéssemos vivendo um outono em nosso microcosmo. Um momento em que é preciso sentir profundamente a renovação. Nossas “folhas” caem e por isso nos sentimos vazios. Não é um sentimento dos melhores. Nos despimos de todo e qualquer pensamento coerente. Tudo parece confuso, amontoado como folhas amarronzadas sobre as raízes da nossa árvore. Mas não podemos retirá-las de lá. São elas que nutrirão o nosso solo carente de novas substâncias e é doloroso o processo de decomposição das velhas ideias, conceitos. É preciso.

Quando o inverno chega, a melancolia é embalada pelo aconchego. Nos abraçamos como se existisse uma nova pessoa bem na nossa frente, um novo Eu que precisa ser aceito e acariciado. Um Eu desprotegido que, nesta fase de transição, precisa ser envolvido, aquecido. Nesta aproximação repleta de abraços e ternura, transferimos a nossa essência, aos poucos, aguardando uma primavera abundante de novos sonhos e projetos. Nos fundimos com o nosso Eu renovado e podemos vislumbrar a claridade. Caminhos que, antes, estavam envolvidos pelos véus brumosos dos nossos pesares, se descortinam, se mostram esplendorosos. E, aí sim, temos a certeza de que tudo passa.

O tempo e eu…

Todos nós temos 24 horas por dia, a questão é saber aproveitá-las quando o cansaço bate à porta ou tudo resolve acontecer ao mesmo tempo. Estou na fase das horas cheias. Você sabe o que são horas cheias? Bom, eu as chamo assim quando praticamente todos os horários do meu dia estão preenchidos com alguma atividade. Há dias em que as horas quase explodem de tão recheadas, enquanto outros eu tenho a possibilidade de descansar um pouco, ler ou simplesmente não fazer nada (o que também é importante!).

O lançamento do meu livro me trouxe novos desafios e, principalmente, tem me direcionado para muitas pesquisas, estudos. Mas, não estou sem tempo, estou apenas sem muitos espaços para encaixar coisas que não são prioridade máxima. Falo do livro porque este é o foco da vez. Não basta escrever, é preciso propagar o que se escreve e se envolver com o seu leitor, tenha ele 1 ano ou 100 anos de idade. Esta é apenas uma obra e existem outras em andamento, as quais a dedicação também é necessária. O que vem depois de Nicola, além do trabalho que estou desenvolvendo com ela? O que vem depois de um lançamento? Como dançar no ritmo da dinâmica dos acontecimentos procurando suprir as necessidades envolvidas neste processo? E quanto a novos livros, novas vivências, novas histórias que merecem atenção? E quanto a mim?  Há muito a ser feito.

Não preciso de mais tempo e sim de organização. Preciso do espaço que me permita navegar num displicência que traduza inspirações. Preciso do silêncio e do barulho, alternadamente, para encontrar respostas e novas ideias. Preciso de reconexão o tempo todo… De ouvidos prontos para ouvir de verdade e de envelopes imaginários capazes de armazenar cada som… De olhos atentos para capturar imagens essenciais para a confecção de novas frases e diálogos (quem sabe?). Preciso de aventuras e de loucuras… Reinventar momentos velhos, empoeirados, contos guardados na estante intocada há tempos. Preciso esvaziar as gavetas, reler os diários, recontar trajetórias, poetizar tristezas.

Mas, o que eu mais preciso é me lambuzar com as horas cheias, me fartar dessa abundância de acontecimentos – bons e ruins – pois só assim serei capaz de tecer a urdidura, abandonando o fuso de vez em quando e dando a chance das mãos entrelaçarem por si só um enredo que encante.

Até mais!

Mila